Thursday, October 29, 2009

"My hero beats your hero"

O nome de Sepé Tiaraju, que morreu lutando contra espanhóis e portugueses nas Guerras Guaraníticas, será inscrito no Livro de Aço dos heróis nacionais. Na lista Etnolingüística, o anúncio deste fato deu início a uma interessante discussão sobre heróis e vilões da história. A mensagem de Wilmar D'Angelis sumariza bem o problema com este tipo de "homenagem", baseada num conceito furado de "nacionalidade acima de todas as diferenças".

Mas apesar de começar com lucidez, a discussão continuou como se de fato houvesse um conceito supra-histórico ou supra-nacional de herói -- o que não há. Com raras exceções, o herói de um é o bandido de outro. Eu consigo achar poucos casos de seres humanos que contribuíram para o bem-estar da humanidade inteira, ultrapassando barreiras geográficas ou sociais. Um exemplo seriam cientistas como Sabin, Pasteur e Vital Brasil -- se bem que, como o caso da Revolta da Vacina nos ensina, até neste caso a regra do herói relativo se aplica.

É, portanto, infrutífero -- para não dizer arrogante -- atacar o herói alheio sem se colocar na posição do outro. Os que lutam para libertar seu povo da opressão são, talvez, os mais prontamente qualificáveis como "heróis". Neste caso, Plácido de Castro (criticado como "agente do imperialismo brasileiro" na discussão na lista) seria certamente um herói para os acreanos -- em sua maioria, nordestinos pobres lutando pela sobrevivência em terra que, de tão desprezada pela Bolívia, seria arrendada a norte-americanos.

Enfim, cada um tem seu herói, por razões um tanto pessoais. Eu, que era fã de Che Guevara na adolescência e devorei seus escritos -- rasos, ingênuos, bobinhos -- com avidez, hoje penso que sua intromissão na vida dos bolivianos (que levaria a sua morte) foi um resultado de seu egocentrismo e pretensão -- a mesma pretensão que se censura em missionários religiosos, que se consideram suficientemente esclarecidos para "libertar" a plebe ignara. Che é o Fidel que morreu jovem, antes que pudesse pôr seus sonhos à prova e antes que se tornasse apenas mais um ditador em uma lista já suficientemente longa. O trabalho de missionários entre os índios acabou revelando, para mim, aquilo que passei a detestar na esquerda salvacionista: a crença de que eles -- e apenas eles -- viram a luz e, portanto, estão qualificados a conduzir a humanidade rumo a sua salvação.

Heróis não precisam ser ressuscitados dos livros de história -- caso de Zumbi dos Palmares. Para mim, Pixinguinha, Machado de Assis e Lima Barreto fizeram muito mais para libertar negros e mulatos de uma das cadeias que ainda nos escravizam: o estereótipo de que negros são mais bem adaptados para o trabalho braçal -- e os esportes, claro --, mas menos capazes intelectualmente. Mas este é o meu conceito de herói -- pessoal (mas transferível).

Enfim, meu herói pessoal e familiar -- Antônio Conselheiro -- dificilmente será inscrito no livro de aço (espero, sinceramente, que nunca, porque o próprio conceito de um "livro de aço" é de um fetichismo ridículo). A menos que tal inscrição viesse com uma admissão oficial da carnificina perpetrada pelas forças oficiais contra um bando de miseráveis, o que seria uma admissão do caráter um tanto questionável de outros heróis nacionais, que promoveram o massacre.