O nome de Sepé Tiaraju, que morreu lutando contra espanhóis e portugueses nas Guerras Guaraníticas, será inscrito no Livro de Aço dos heróis nacionais. Na lista Etnolingüística, o anúncio deste fato deu início a uma interessante discussão sobre heróis e vilões da história. A mensagem de Wilmar D'Angelis sumariza bem o problema com este tipo de "homenagem", baseada num conceito furado de "nacionalidade acima de todas as diferenças".
Mas apesar de começar com lucidez, a discussão continuou como se de fato houvesse um conceito supra-histórico ou supra-nacional de herói -- o que não há. Com raras exceções, o herói de um é o bandido de outro. Eu consigo achar poucos casos de seres humanos que contribuíram para o bem-estar da humanidade inteira, ultrapassando barreiras geográficas ou sociais. Um exemplo seriam cientistas como Sabin, Pasteur e Vital Brasil -- se bem que, como o caso da Revolta da Vacina nos ensina, até neste caso a regra do herói relativo se aplica.
É, portanto, infrutífero -- para não dizer arrogante -- atacar o herói alheio sem se colocar na posição do outro. Os que lutam para libertar seu povo da opressão são, talvez, os mais prontamente qualificáveis como "heróis". Neste caso, Plácido de Castro (criticado como "agente do imperialismo brasileiro" na discussão na lista) seria certamente um herói para os acreanos -- em sua maioria, nordestinos pobres lutando pela sobrevivência em terra que, de tão desprezada pela Bolívia, seria arrendada a norte-americanos.
Enfim, cada um tem seu herói, por razões um tanto pessoais. Eu, que era fã de Che Guevara na adolescência e devorei seus escritos -- rasos, ingênuos, bobinhos -- com avidez, hoje penso que sua intromissão na vida dos bolivianos (que levaria a sua morte) foi um resultado de seu egocentrismo e pretensão -- a mesma pretensão que se censura em missionários religiosos, que se consideram suficientemente esclarecidos para "libertar" a plebe ignara. Che é o Fidel que morreu jovem, antes que pudesse pôr seus sonhos à prova e antes que se tornasse apenas mais um ditador em uma lista já suficientemente longa. O trabalho de missionários entre os índios acabou revelando, para mim, aquilo que passei a detestar na esquerda salvacionista: a crença de que eles -- e apenas eles -- viram a luz e, portanto, estão qualificados a conduzir a humanidade rumo a sua salvação.
Heróis não precisam ser ressuscitados dos livros de história -- caso de Zumbi dos Palmares. Para mim, Pixinguinha, Machado de Assis e Lima Barreto fizeram muito mais para libertar negros e mulatos de uma das cadeias que ainda nos escravizam: o estereótipo de que negros são mais bem adaptados para o trabalho braçal -- e os esportes, claro --, mas menos capazes intelectualmente. Mas este é o meu conceito de herói -- pessoal (mas transferível).
Enfim, meu herói pessoal e familiar -- Antônio Conselheiro -- dificilmente será inscrito no livro de aço (espero, sinceramente, que nunca, porque o próprio conceito de um "livro de aço" é de um fetichismo ridículo). A menos que tal inscrição viesse com uma admissão oficial da carnificina perpetrada pelas forças oficiais contra um bando de miseráveis, o que seria uma admissão do caráter um tanto questionável de outros heróis nacionais, que promoveram o massacre.
Thursday, October 29, 2009
"My hero beats your hero"
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Eduardo Rivail Ribeiro
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2:08 PM
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Friday, October 16, 2009
Censorship, kindergarten style
One of my kids' favorite TV shows (and probably my absolute favorite one) is Kipper the Dog, by British author Mick Inkpen. It's educational in many ways, without being preachy. The characters illustrate well the value of friendship, display tenderness and understanding towards each other and their surroundings, are inquisitive, adventurous, and imaginative. The pace is perfect, far from the hyper, behaviorist jumpiness of Dora, or the boring narrative of Caillou. (Incidentally, even though Inkpen's characters are talking dogs, pigs, and mice, they have certainly more human character than Caillou's parents. While grown-ups in Caillou sound like they are always on a high dose of sedatives, the characters in Kipper are allowed to lose their patience, getting frustrated every now and then.)
But, as a linguist raising a family in a foreign country (foreign to me, not them, of course), maybe what I like most in Kipper is the opportunity it provides to expose kids to a different linguistic repertoire. Growing up in a rather multilingual environment, in a family that mixes, on a daily basis, Portuguese, English, Spanish, and Gujarati, my daughters have been always aware of linguistic differences. Rather than simply experiencing linguistic diversity, they actually enjoy it. At two, Uma, my first daughter, already knew that dudu (a Gujarati baby-talk form for 'milk') shouldn't be used with the "English" kids. At three, she already made up linguistic jokes ('How do you say "envelope" in Spanish?" -- "Enve Lopez"). Roma, who'll be three next month, repeats with delight the lines of the show, pronouncing words such as "basket" with a British accent.
So, when Pig, a character in Kipper, used the word "stupid" in one of the show's episodes ("The Lost Mug"), it wasn't hard to explain to them that it probably wasn't such a bad word there, in England, although it would be better to avoid it here, in the US -- a nice opportunity to teach a little lesson on dialectal diversity (and even a little geography). Other parents, however, apparently didn't think of it as a didactic opportunity or an exercise in tolerance. PBS Sprout now airs a slightly altered version of the episode, in which the "bad" word is simply erased. (Copies of the episode at our local library, however, still preserve the old version, for those curious enough to compare.)
PS. I just found the raw, uncensored episode on YouTube. Check it out.
Posted by
Eduardo Rivail Ribeiro
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11:49 AM
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