Monday, May 7, 2012

Língua e estereótipo em Maurício de Souza

Personagens de quadrinhos e desenhos animados são, como qualquer artefato cultural, um reflexo da época e da sociedade que os produzem. Os personagens de Maurício de Souza, por exemplo, capturam bem -- intencionalmente ou não -- alguns aspectos da sociedade brasileira para o qual foram criados -- ou, pelo menos, de uma parte da sociedade brasileira.  Alguns personagens, em particular, passaram a integrar o imaginário do brasileiro, justamente por serem profundamente enraizados em nossa cultura. É o caso de Chico Bento, meu favorito, uma imagem benigna do caipira que encontra paralelos em um outro fenônomeno cultural brasileiro -- as piadas do mineiro esperto, que, apesar de sua aparência simples e índole humilde, sempre se mostra mais sábio que o "dotô" da cidade.  Mas, à medida que Maurício de Souza se distancia de seu próprio universo cultural, seus personagens se tornam mais ocos e superficiais. É o caso de Papa-Capim, um 'índio' genérico, bobão, que tem muito mais a ver com a imagem que o indivíduo urbano, de classe média, razoavelmente educado faz do índio do que com o índio real (este eterno desconhecido e mal-compreendido).


Reflexo da sociedade que os inspira, muitos personagens são um tanto óbvios, servindo apenas para reforçar estereótipos igualmente enraizados. O anjinho é loiro de olhos azuis, o negrinho é futebolista, o cara sujinho tem o cabelo pixaim.  Mas, como fenômeno cultural contemporâneo, nada nos quadrinhos e desenhos animados de Maurício de Souza é definitivo: modificam-se, à medida que a sociedade evolui. Mas, como outros aspectos da cultura de massa brasileira, modificam-se não a partir de uma visão esclarecida de nossa sociedade, mas sob a pressão de um politicamente correto importado.  Cascão agora se vê no direito de chamar Cebolinha de "careca", mas Cebolinha, naturalmente, nunca chamaria Cascão de "pixaim" ou "catinguento". À americana, o racismo se inverte, mas não se extingue, o que se explica facilmente: são mudanças de inspiração mais mercadológica que sociológica, carentes, portanto, de sinceridade. Cebolinha agora comemora o halloween; seus gibis são traduzidos para o inglês, devendo, portanto, ser filtrados para um público diferente.

Aqueles que, na minha geração, cresceram lendo os gibis da Turma da Mônica, tendem a se apegar a eles muito mais por razões emocionais, claro, do que intelectuais. E o mesmo apego emocional, no meu caso, faz com que eu os apresente para novas gerações da família -- mas com algumas boas doses de comentário crítico. Não se trata de censurar um item cultural que, apesar de divertido, pode conter, mais ou menos implícitas, idéias pouco construtivas. Trata-se, pelo contrário, de usá-los como ferramentas de conscientização. E um dos aspectos menos discutidos, e talvez mais deploráveis, dos estereótipos aqui discutidos é o lingüístico. Em cidades grandes como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, a discriminação contra nordestinos é pior, em termos de exclusão social, do que a de minorias raciais. Talvez por não ter equivalentes norte-americanos, importáveis, é a que menos se combate. E, por ser tão arraigada na cultura do "sul" brasileiro, parte tão integral do cotidiano, acaba escapando às iniciativas politicamente corretas.

No caso dos desenhos animados e quadrinhos de Maurício de Souza, é interessante notar que o sotaque default é paulistano e raramente se ouvem outros sotaques. As raras ocorrências de um sotaque não-paulista(no), assim, assumem grande relevância diagnóstica da sociedade que os personagens pretendem representar.  Equivocada ou não, a visão que transmitem é a de uma sociedade em que nordestinos só aparecem como empregadas domésticas e porteiros de prédios, nunca como o professor, o bibliotecário, o policial. É um exemplo interessante do estereótipo que escapa ao radar politicamente correto -- e, por isso mesmo, um caso que vale a pena usar, com um público infanto-juvenil, para ilustrar os riscos de uma cultura ainda cheia de gavetas bem delimitadas, onde se arquiva gente por categorias, não mais raciais, mas certamente sociais e étnico-geográficas.


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