Sunday, September 9, 2012

Judging a book by its (wrong) cover


I am a huge fan of the Internet Archive, which, as I have written before, has a lot to teach more recent initiatives such as USP's Brasiliana.  But, despite the overall excellent quality of the materials it digitizes, some of its items present cataloging mistakes (unavoidable, perhaps, in such a large-scale project). One of them is the item cataloged as The social bees of Brazil and their Tupi names, by Hermann von Ihering, which actually refers to a completely different downloadable item--The Head of the Scolopendra (!), by Fr. Meinert (1883). The mistake is repeated by the Open Library, a sister project of the Internet Archive, which automatically imports data from the latter.

Unfortunately, what is clearly an honest, and fairly harmless, mistake, ends up being magnified by the lack of editorial care of commercial publishers.  Ignoring the mistake, several print-on-demand providers, which take advantage of freely-available materials digitized by the Internet Archive, Google Books, and other initiatives, are selling apples for oranges, offering book B as if it were book A (for instance, here).  Even WorldCat, which tends to be a fairly reliable source, ends up spreading the error (the correct entry can be found here).  For those interested in obtaining access to the real book, a useful tip: while Ihering's pamphlet is, according to the WorldCat, around 15-pages long, the wrong title (as printed by Nabu and sold by Amazon, for instance) is 90-pages long.  The portuguese version of Ihering's article, As abelhas sociais do Brasil e suas denominações tupis (Ihering 1904), is indeed freely-available online.

This issue--the lack of editorial seriousness of print-on-demand services such as Nabu, as well as the predatory pricing practices of fairly well-reputed publishers such as Lincom--was discussed a few years ago in the Etnolingüística list.  Readers--and especially librarians, who may be mislead into spending high sums of money with questionable editions of books that are otherwise freely-available--should take notice.

Monday, May 7, 2012

Língua e estereótipo em Maurício de Souza

Personagens de quadrinhos e desenhos animados são, como qualquer artefato cultural, um reflexo da época e da sociedade que os produzem. Os personagens de Maurício de Souza, por exemplo, capturam bem -- intencionalmente ou não -- alguns aspectos da sociedade brasileira para o qual foram criados -- ou, pelo menos, de uma parte da sociedade brasileira.  Alguns personagens, em particular, passaram a integrar o imaginário do brasileiro, justamente por serem profundamente enraizados em nossa cultura. É o caso de Chico Bento, meu favorito, uma imagem benigna do caipira que encontra paralelos em um outro fenônomeno cultural brasileiro -- as piadas do mineiro esperto, que, apesar de sua aparência simples e índole humilde, sempre se mostra mais sábio que o "dotô" da cidade.  Mas, à medida que Maurício de Souza se distancia de seu próprio universo cultural, seus personagens se tornam mais ocos e superficiais. É o caso de Papa-Capim, um 'índio' genérico, bobão, que tem muito mais a ver com a imagem que o indivíduo urbano, de classe média, razoavelmente educado faz do índio do que com o índio real (este eterno desconhecido e mal-compreendido).


Reflexo da sociedade que os inspira, muitos personagens são um tanto óbvios, servindo apenas para reforçar estereótipos igualmente enraizados. O anjinho é loiro de olhos azuis, o negrinho é futebolista, o cara sujinho tem o cabelo pixaim.  Mas, como fenômeno cultural contemporâneo, nada nos quadrinhos e desenhos animados de Maurício de Souza é definitivo: modificam-se, à medida que a sociedade evolui. Mas, como outros aspectos da cultura de massa brasileira, modificam-se não a partir de uma visão esclarecida de nossa sociedade, mas sob a pressão de um politicamente correto importado.  Cascão agora se vê no direito de chamar Cebolinha de "careca", mas Cebolinha, naturalmente, nunca chamaria Cascão de "pixaim" ou "catinguento". À americana, o racismo se inverte, mas não se extingue, o que se explica facilmente: são mudanças de inspiração mais mercadológica que sociológica, carentes, portanto, de sinceridade. Cebolinha agora comemora o halloween; seus gibis são traduzidos para o inglês, devendo, portanto, ser filtrados para um público diferente.

Aqueles que, na minha geração, cresceram lendo os gibis da Turma da Mônica, tendem a se apegar a eles muito mais por razões emocionais, claro, do que intelectuais. E o mesmo apego emocional, no meu caso, faz com que eu os apresente para novas gerações da família -- mas com algumas boas doses de comentário crítico. Não se trata de censurar um item cultural que, apesar de divertido, pode conter, mais ou menos implícitas, idéias pouco construtivas. Trata-se, pelo contrário, de usá-los como ferramentas de conscientização. E um dos aspectos menos discutidos, e talvez mais deploráveis, dos estereótipos aqui discutidos é o lingüístico. Em cidades grandes como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, a discriminação contra nordestinos é pior, em termos de exclusão social, do que a de minorias raciais. Talvez por não ter equivalentes norte-americanos, importáveis, é a que menos se combate. E, por ser tão arraigada na cultura do "sul" brasileiro, parte tão integral do cotidiano, acaba escapando às iniciativas politicamente corretas.

No caso dos desenhos animados e quadrinhos de Maurício de Souza, é interessante notar que o sotaque default é paulistano e raramente se ouvem outros sotaques. As raras ocorrências de um sotaque não-paulista(no), assim, assumem grande relevância diagnóstica da sociedade que os personagens pretendem representar.  Equivocada ou não, a visão que transmitem é a de uma sociedade em que nordestinos só aparecem como empregadas domésticas e porteiros de prédios, nunca como o professor, o bibliotecário, o policial. É um exemplo interessante do estereótipo que escapa ao radar politicamente correto -- e, por isso mesmo, um caso que vale a pena usar, com um público infanto-juvenil, para ilustrar os riscos de uma cultura ainda cheia de gavetas bem delimitadas, onde se arquiva gente por categorias, não mais raciais, mas certamente sociais e étnico-geográficas.


Tuesday, March 20, 2012

"Os Boruns", de Alfredo Polly (1908)

Foi num artigo do abade Ignace Etienne, publicado em Anthropos em 1909, que encontrei a referência a um livreto pouco conhecido, "fort imparfait, il est vrai, mais contenant quelques détails intéressants": Os Boruns: recordações selvajens, de Alfredo Polly (Rio de Janeiro: Papelaria Mendes, 1908). O artigo de Etienne (três páginas, apenas) não traz, em si, nenhuma contribuição original: as informações históricas são de segunda mão; as informações etnográficas, pouco confiáveis; e o vocabulário "Borum" inclui, ao lado de palavras realmente Borum, várias palavras Tupinambá, a tal ponto que o abade afirma, sobre a língua dos Borum, que "on n'a pas de peine à établir qu'elle se rapproche beaucoup de celle des Tupinambas du Maranhão." As palavras teriam sido coletadas em Olivença, sul da Bahia, onde indivíduos Borum provavelmente conviveriam com indivíduos Tupinambá.

Fiquei, naturalmente, intrigado para conhecer o livreto de Polly; talvez fosse uma daquelas contribuições leigas, sem ambições literárias, eminentemente descritivas e, portanto, úteis, como a que nos legou o agrimensor mineiro Alexandre de Souza Barbosa, sobre os Panará. O livreto de Polly é extremamente raro, mas consegui encontrá-lo na seção de livros raros da Library of Congress, onde o consultei recentemente. Para minha decepção, o livro é uma obra de ficção, de um romantismo tardio (a começar pela epígrafe, famoso poema de Gonçalves Dias: "Um velho Tymbira, coberto de gloria,[...] Dizia prudente – “Meninos, eu vi!”"). Contém quatro narrativas, cujos títulos são nomes de heróis e heroínas "Borum"(romantizados, claro, à imitação do Peri de José de Alencar): "Nakmã" (p. 1-8), "Gorá" (p. 1-8), "Nhum" (p. 1-18) e "Cyrém" (p. 1-40; cada história recebe numeração de página à parte). Embora ocorram, dispersas ao longo do texto, algumas palavras Borum, trata-se de itens documentados em fontes anteriores; não há, portanto, nenhuma contribuição original ao conhecimento do léxico da língua.

À guisa de apêndice, há dois textos adicionais que, à primeira vista, pareceriam conter material descritivo útil: "O kijeme: uzos e costumes" (p. 1-4) e "O Peruhype" (p. 5-7). O primeiro fornece informações que não parecem ser corroboradas por qualquer outra fonte sobre estes índios, descrevendo a existência de três cômodos na casa (kijeme) Borum (um primeiro, ocupado por homens; um outro, para as mulheres; e um terceiro, para o armazenamento de víveres); tais informações seriam copiadas por Etienne (no artigo mencionado acima), que concluiria de boa fé: "et il faut admirer, en passant, la moralité de cette tribu qui non seulement pratiquait la monogamie, mais encore avait la coutume d'éviter la promiscuité des sexes." Informações conflitantes seriam, em princípio, bem vindas: poderiam basear-se em aspectos pouco conhecidos da cultura, não percebidos por visitantes anteriores; ou poderiam apontar para mudanças culturais desencadeadas pelo contato. Mas, no contexto da obra, é mais provável que se devam antes à imaginação do autor que a observação objetiva. O último texto é igualmente desprovido de valor informativo: é uma descrição imaginativa do Rio Peruípe, que me pareceu imitar a descrição do Paquequer n'O Guarani de José de Alencar.

Enfim, contrastando com casos raros como aquele de Alexandre de Souza Barbosa, o pequeno livro de Alfredo Polly ilustra, uma vez mais, uma oportunidade perdida, por intelectuais locais, para um melhor conhecimento dos índios. A conclusão do livrinho, embora simpática aos índios, os trata como coisa do passado (p. 4, em "O kijeme"): "Robustos e sadios, viviam assim os Boruns no seio de suas florestas admiráveis, até que a civilização os seduziu com falsas promessas de bens iluzorios, tão falsas aquellas e tão iluzorios estes, que nenhum delles hoje mais existe á face da terra!" À época em que Polly escrevia estas linhas, grupos Borum ainda vagavam pelas florestas do vale do Rio Doce, onde o alemão Walter Garbe registraria informações etnográficas e imagens valiosas, demonstrando que tais Borum ainda preservavam muito de sua cultura original. O contraste entre Polly e um Walter Garbe ilustra, assim, um aspecto ainda mais deprimente da vida intelectual brasileira de então: a subserviência do intelectual da província às modas literárias da metrópole, a tal ponto que o índio real, vizinho, vinha a ser ignorado em proveito de um índio imaginário.