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Monday, June 9, 2008

Kynyxiwe deu samba

Popularizados pela imprensa e por obras da literatura de aventuras (de autores como Willy Aurely e José Mauro de Vasconcelos), os Karajá são talvez um dos povos indígenas que mais espaço ocupam no imaginário popular brasileiro (ou, pelo menos, no Centro-Oeste). Mesmo com isto em mente, não deixou de me surpreender um fato que acabo de descobrir: em 1979, o samba-enredo da escola de samba carioca Estácio de Sá teve como tema as aventuras de Kynyxiwe [kənãʃi'wɛ], "trickster" que, na mitologia Karajá, é o responsável pela aquisição do fogo pela humanidade, entre outras façanhas. Trata-se do samba "Das trevas ao sol, uma odisséia dos Karajás" (de autoria de Elinto Pires e Leleco, interpretado por Leleco; letra e música disponíveis aqui):

Olê, olê
Olê, olá (bis)
Se a vida tem segredo
Urubu-rei pode contar

Conta a lenda
Que os Karajás
Vieram do furo das pedras
Tal e
qual os javaés
E os Xambioás
No seu mundo encantado
Só na velhice
que a morte acontecia
E a Siriema despertou, ô ô
A curiosidade que havia
Kaboi, o avoengo reuniu
Guerreiros para explorar a terra
E ficou
desiludido
Resolveu contar tudo a seu povo
Que dividido partiu para um
mundo novo
Kanaxivue
Bravo guerreiro casou com Mareicó
E foi
procurar a luz
Para tornar o seu mundo bem melhor
Morreu numa imensa
odisséia
Quando urubu-rei apareceu
Lhe deu vida, o Sol, as estrelas
E o luar
E assim surgiu
A lenda dos Karajás

Não só de Kynyxiwe consiste o enredo, que também menciona um outro personagem de peso, Koboi [kəbo'i] (que, por sinal, não parece ocorrer no conjunto de histórias que têm Kynyxiwe como protagonista). Imagino que os autores do samba tenham se baseado na literatura etnográfica então existente e desconfio que, mais precisamente, tenham se baseado em trabalhos de Herbert Baldus, considerando, por exemplo, a maneira como escreveram o nome do nosso herói: Kanaxivue (vide o artigo de Baldus, de título idêntico, disponível na Biblioteca Digital Curt Nimuendaju). É claro que o samba toma algumas liberdades poéticas. Mas não deixa de ser uma homenagem bem merecida a uma cultura fascinante.

Saturday, May 31, 2008

Anthology of Brazilian Indian Music

Lançada originalmente em 1962, a coletânea Anthology of Brazilian Indian Music, reunindo canções Karajá, Javaé, Krahô, Suyá, Trumai, Tukuna, Juruna e Txukahamãe coletadas por Harald Schultz e Vilma Chiara, pode ser adquirida online no site do Smithsonian Global Sound (aqui). Mesmo para quem não planeja adquirir o CD inteiro, é possível adquirir canções "a granel". De toda forma, vale a pena visitar o site, já que é possível ouvir amostras de cada uma das canções. Acompanha o CD um guia (que pode ser baixado gratuitamente), escrito por Schultz e Chiara, com informações sobre os povos representados na coletânea. [Para mim, foi interessante saber que a canção "Juparaná", tão popular entre os Karajá, seria de origem Txukahamãe.]



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Saturday, May 10, 2008

Excursión a los Indios del Araguaia (Sekelj 1948)



Em meados de 1945, o jornalista, escritor e esperantista Tibor Sekelj (1912-1988) percorreu o Rio Araguaia, desde Aragarças à ponta norte da Ilha do Bananal, visitando aldeias Karajá e Javaé. Além de servir de inspiração para o livro infantil Kumeŭaŭa, la filo de la ĝangalo ('Kumewawa, o filho da floresta', publicado originalmente em esperanto), a viagem resultou no artigo "Excursión a los Indios del Araguaia" (1948), que acaba de ser incluído na Biblioteca Digital Curt Nimuendaju. Enviado por Hélène Brijnen (Leiden), trata-se de uma fonte muito pouco conhecida sobre os Karajá/Javaé, não tendo sido mencionada em nenhum dos trabalhos publicados sobre a língua e a cultura deste povo. Kumewawa, o filho da floresta (versão em sérvio)

O artigo inclui, além de informações etnográficas e fotos do cotidiano Karajá, um vocabulário Karajá-espanhol, fornecido por indivíduos da aldeia Karajá do Sul de Aruanã (então Leopoldina), Goiás. A transcrição do vocabulário é razoavelmente confiável (principalmente quando comparada com a de vocabulários anteriores, e mesmo com obras de alguns contemporâneos, como Frei Luiz Palha). O vocabulário de Sekelj é particularmente útil para corroborar outras fontes da mesma época. Um exemplo é o empréstimo maritó 'paletó', que eventualmente viria a cair em desuso; documentado por Sekelj e Brito Machado, é um item útil para ilustrar adaptações fonológicas de empréstimos em uma época em que os Karajá tinham menor familiaridade com o português.

Leia mais: Sobre o autor (Wikipédia, Esperanto.Net); Kumewawa, o filho da floresta (em sérvio); sobre a revista Runa: Archivo para las Ciencias del Hombre.

Tuesday, May 1, 2007

In den Wildnissen Brasiliens (Krause 1911)

In den Wildnissen Brasiliens (Fritz Krause, 1911), um dos grandes clássicos da etnografia sobre os Karajá (incluindo também informações sobre outras tribos da região do Araguaia), está agora disponível online, através do Google Books Library Project. O livro pode ser lido ou baixado (em pdf) aqui.

Esta obra já havia sido traduzida ao português por Egon Schaden (com prefácio de Herbert Baldus) e publicada ao longo de várias edições da Revista do Arquivo Municipal, entre 1940 e 1944 (com o título "Nos sertões do Brasil"). Esta versão brasileira, infelizmente, não inclui o interessante apêndice lingüístico, contendo dados do Karajá, do Javaé e do Kayapó; por esta razão, este apêndice do original alemão havia sido um dos primeiros trabalhos incluídos na Biblioteca Digital Curt Nimuendaju.

Considerando-se o fato de que a tradução de Schaden está distribuída em vários números da Revista do Arquivo Municipal, e que não muitas bibliotecas possuem coleções completas deste periódico, a publicação online do original alemão é mais do que bem vinda. Ainda mais bem vinda seria uma publicação, em livro, da tradução brasileira. Será que há projetos neste sentido?