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Friday, January 22, 2010

D. Maria Rosa: a última dos Otí?

Em 2004, o quadro "Cena Mágica" do programa Fantástico, da Rede Globo, levou ao ar um trecho do documentário Terra dos Índios, do cineasta Zelito Viana (1979). No trecho (gravado em Bauru, SP, em 1978), a índia Maria Rosa — identificada no documentário como a última remanescente Ofayé — parece travar um "diálogo" com sua própria voz registrada por um gravador. A narração, na inconfundível voz de Fernanda Montenegro, descreve assim a cena, singela e comovente:

"Não tendo ninguém com quem possa falar sua língua, Dona Maria Rosa, ao ouvir o gravador repetindo suas palavras, acreditou que pudesse estabelecer um diálogo com a máquina. Faz perguntas como: Cadê meu pai? Cadê minha mãe [...]."
O documentário, no entanto, se engana. Primeiro porque, de acordo com o historiador Carlos Alberto dos Santos Dutra, Maria Rosa (falecida em 1988, aos 122 anos de idade) seria uma sobrevivente da tribo Otí (esta, de fato, agora extinta). Mas, mesmo se fosse Ofayé, não seria a última remanescente da tribo: enquanto o documentário, ecoando autoridades como Darcy Ribeiro (e a lingüista Sarah Gudschinsky), apregoava a virtual extinção da tribo Ofayé, os verdadeiros remanescentes da tribo sobreviviam a duras penas em terra alheia e hostil -- a reserva Kadiwéu na Serra da Bodoquena, MS.

Contactado pela equipe do Fantástico antes que o programa fosse ao ar, Dutra (o maior conhecedor da história Ofayé, mais conhecido como Carlito) tentou corrigir o engano, mas em vão. Entre a verdade histórica e uma boa história mal contada, o jornalismo fantástico optaria pela segunda opção. Mais intrigante que a opção preferencial pelo sensacionalismo midiático ilustrada por este episódio é, para mim, o potencial impacto que a "descoberta" da última representante de uma etnia, falante ainda de sua língua, poderia ter tido entre lingüistas e antropólogos. Como explica Carlito, a língua falada por Maria Rosa não é o Ofayé. Seria mesmo o Otí? Se era língua desconhecida, quem teria fornecido as traduções? A própria Maria Rosa? Ou seria uma outra língua também falada na reserva, como o Kaingáng Paulista?

Falante ou não de uma língua hoje extinta, D. Maria Rosa, uma janela para o passado indígena do oeste paulista, estava certamente aberta ao diálogo. Estariam os antropólogos e lingüistas de então dispostos a ouvi-la?

Leia mais: trabalhos sobre os Otí e sua língua na Biblioteca Digital Curt Nimuendaju; "Os esquecidos indígenas Oti Xavante", artigo de Carlos Alberto dos Santos Dutra (2004)

Postscriptum, 27/jan/2010. Em mensagem enviada à lista Etnolingüística, o lingüista Wilmar D'Angelis confirma que a língua falada por D. Maria Rosa no documentário era, de fato, o Kaingáng.

Sunday, June 1, 2008

Homofonia em Macro-Jê

Detalhe (p. 97) da 'Arte y Vocabulario de la Lengua Chiquito', com as entradas para 'mano' e 'espina' (clique para ampliar)'Tecer', 'semente', 'fogo'

Nos estudos comparativos das línguas do tronco Macro-Jê (cujas raízes são, em geral, monossilábicas e de estrutura silábica relativamente simples, favorecendo, assim, a existência de homofonia), percebemos que a existência de pares homófonos acaba tendo um valor diagnóstico interessante: se um par homófono em uma língua corresponde a um par homófono em outra, é um bom sinal de que as correspondências fonológicas detectadas estão no caminho correto. Um caso que mencionei em outra ocasião (Ribeiro 2004) é o das raízes 'semente' e 'tecer' em Karajá e Jê, homófonas em ambas as famílias; pesquisando um pouco mais, descobri que a homofonia vai mais além, ocorrendo também em Maxakalí e Rikbaktsá (Ribeiro, a sair):

PJê * 'tecer', KRJ ɗɨ, MXK xap, RIK -zik
PJê * 'semente, KRJ ɗɨ, MXK xap, RIK zik 'caroço'

Nas famílias Jê e Maxakalí, a homofonia envolve também a raiz para 'fogo', cuja reconstrução inicial por Davis para o PJê, *kuzɨ, foi revista para *, graças principalmente aos dados do Panará (generosamente fornecidos por Luciana Dourado):

PJê *-sɨ 'fogo', MXK -xap (cf. Pataxó)

Em Karajá, a raiz para 'fogo', hɛkɔɗɨ, provavelmente inclui um cognato da raiz para 'fogo' nas demais línguas (*-ɗɨ), acrescido de possíveis elementos morfológicos fossilizados (cf. 'lenha', 'madeira'). Em Ofayé, as raízes para 'fogo' e 'semente' são parecidas (ʃãw e ʃa, respectivamente), mas não homófonas; se estas forem, de fato, cognatas com as formas Jê, Karajá e Maxakalí correspondentes, é provável que a homofonia não remonte ao Proto-Macro-Jê (o que parece ser corroborado também pelo Rikbaktsá izo 'fogo' e o Kipeá i-su 'fogo' -- se bem que, neste último caso, as formas para 'semente' ou 'tecer' não foram, aparentemente, documentadas).

'Carne', 'espinho', 'mão'

Tudo isto para servir de introdução a um outro caso interessante de homofonia em Macro-Jê. Em nossos estudos comparativos demonstrando a inclusão da família Jabutí no tronco Macro-Jê, Hein van der Voort e eu (a sair) havíamos notado que as raízes para 'carne' e 'espinho' são homófonas tanto na família Jabutí, quando na família Jê [exemplos do Apinajé (Jê) e Djeoromitxí (Jabutí)]. Mais uma vez, esta homofonia ocorre também em outras famílias do tronco Macro-Jê, como Rikbaktsá (-ni 'espinho', -ni 'carne') e, de certa forma, Karajá (onde, caso cognata, a forma para 'espinho' incluiria elemento morfológico extra) e Chiquitano (onde a forma para 'carne', ñ-añêe, parece incluir elemento morfológico fossilizado; cf. Adelaar 2005: cognato 23).

Apinajé ɲ-ĩ 'carne' (PJê *j-ĩ), DJE , RIK -ni, CHQ ñ-añêe, KRJ d-ɛ
Apinajé ɲ-ĩ 'espinho', DJE , RIK -ni, CHQ ñ-êe, KRJ l-ɛdɛ, MXK yĩn

E ainda mais: homófona (ou, em Maxakalí, quase homófona) com ambas as formas é a raiz para 'mão' reconstruída para o Proto-Jê (em compostos), *j-ĩ-, que tem prováveis cognatos em Chiquitano (ñ-êe), Maxakalí (yĩm) e Ofayé (j-ĩ) -- além do Karajá *d-ɛ- 'braço' (homófono de 'carne'), que ocorre em compostos:

Proto-Jê *j-ĩ- 'mão', MXK yĩm, OFY j-ĩ, KRJ *d-ɛ-'braço' (em compostos)

A mesma ressalva feita acima, com relação à forma para 'fogo' em Ofayé, Maxakalí e Rikbaktsá, deve ser feita aqui com relação à forma para 'mão' em Maxakalí: caso seja, de fato, cognata, isto sugeriria que a homofonia entre 'mão', de um lado, e 'carne'/'espinho', de outro, não remontaria ao Proto-Macro-Jê. [Há muito ainda a se aprender sobre as consoantes finais em Macro-Jê.]

Em um tronco cuja unidade genética é, para alguns, improvável, exemplos como estes -- especialmente no caso de 'semente'/'tecer' e 'carne'/'espinho', que, a julgar pelas evidências disponíveis no momento, teriam sido homófonos em Proto-Macro-Jê (Ribeiro, a sair) -- ajudam a reforçar as hipóteses de parentesco, corroborando ou aprimorando correspondências levantadas anteriormente. A menos, claro, que no final se determine (o que eu duvido) que se trata não de homofonia pura e simples, mas de padrões bem documentados de polissemia. Será?

Fontes:

Os dados do Karajá e do Ofayé são resultados de meu trabalho de campo. Os do Djeoromitxi são de Hein van der Voort. Dados do Apinajé foram obtidos da tese de doutorado de Christiane Cunha de Oliveira (2005). Dados do Chiquitano foram extraídos da "Arte y Vocabulario de la Lengua Chiquito" (1880), de Lucien Adam e Victor Henry (disponível aqui). Dados do Maxakalí e do Rikbaktsá foram extraídos dos dicionários de Popovich & Popovich (2005) e Tremaine (2007), respectivamente, ambos disponíveis no site do SIL Brasil.

Referências:

Adelaar, Willem. 2005. Relações externas do Macro-Jê: O caso do Chiquitano. To appear in Stella Telles (editor), Atas do V Encontro Macro-Jê.

Ribeiro, Eduardo R. 2004. Prefixos relacionais em Jê e Karajá: um estudo histórico-comparativo. Línguas Indígenas da América do Sul (LIAMES), 4:91-101.

Ribeiro, Eduardo R. (a sair). A reconstruction of Proto-Jê (and its consequences for the Macro-Jê hypothesis).

Ribeiro, Eduardo R & Hein van der Voort. (a sair). Nimuendaju was right: the inclusion of the Jabutí language family in the Macro-Jê stock. To appear in International Journal of American Linguistics (special volume on historical linguistics in South America, edited by Spike Gildea and Ana Vilacy Galucio).



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