While some linguists seem to be especially talented at finding exotic features in little-known languages, I am more likely to find intellectual reward in uncovering unusual facts in familiar places. For instance, in my native Caipira dialect of Brazilian Portuguese, the plural marker -s presents a peculiar distribution (when compared with other Romance languages), occurring with interjections and other words traditionally regarded as "invariable." Its distribution is, in all relevant syntactic aspects, that of a second-position clitic (as I analyzed it back in 2001). A little-known fact, such evolution of a suffix into a second-position clitic may have interesting implications for grammaticalization studies.
The list of "exotic" features which can be found at home can be further extended. Although Indo-European languages are hardly mentioned in association with the topic "pronoun borrowing," Portuguese provides a rather illustrative example. In (Brazilian) Portuguese, French moi is commonly used informally, mainly in a sort of tongue-in-cheek "style." Notice that such restriction in usage--to informal, humorous situations--is not uncommon in other instances of pronoun borrowing; in the oft-mentioned examples from Southeast Asian languages, borrowed pronouns may convey different degrees of formality.
Male vs. female speech in Portuguese
I suspect this usage of moi in Portuguese can be considered as typical of female speech, an impression that seems to be corroborated by a quick internet search (look up "pra cima de moi", "para moi", etc.). Notice that diminutive moizinha 'little me (fem.)' is also common, unlike moizinho "little me (masc.)'. Again, this "genderlectal" nature of the borrowing turns out to be rather reminiscent of well-known cases of pronoun borrowing. I'm aware of at least two clear South American cases in which male/female speech distinctions were a result of language contact. The classical example is Island Carib, but another example closer to home (and also involving pronouns) is Cocama, such as described by Ana Suelly Cabral in her PhD dissertation. In both cases, the role of language contact in the development of male/female speech distinctions is clear, since the forms used by males and females are from different genetic sources. The fact that females and males tend to respond differently to language change (including contact-induced change), besides being thoroughly demonstrated by Labov and others, is further illustrated here by the interesting use of French moi in Portuguese. [By the way, if you're a speaker of Portuguese who uses this word, please fill out the form available here.]
Wednesday, September 16, 2009
Pronoun borrowing in Portuguese
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Eduardo Rivail Ribeiro
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Labels: borrowing, empréstimos, female speech, historical linguistics
Friday, June 20, 2008
Língua Geral: Mais um empréstimo em Karajá
Para o estudo das línguas Macro-Jê outrora faladas no leste brasileiro, vocabulários antigos, coletados principalmente no século XIX e no começo do século XX, são essenciais. São, em muitos casos, as únicas fontes disponíveis. Este é caso de todas as línguas das famílias Purí e Kamakã , e de grande parte das línguas das famílias Krenák e Maxakalí. Apesar de seu caráter limitado (tanto em termos quantitativos, quanto qualitativos), tais vocabulários podem fornecer pistas importantes para a compreensão do tronco (vide, a respeito, as recentes dissertações de Andérbio Martins e Ambrósio da Silva Neto, sobre as famílias Kamakã e Purí, respectivamente). Mesmo quando se imagina que já se extraiu tudo o que haveria de aproveitável nestes vocabulários, eles podem reservar alguma surpresa ao pesquisador atento.
Mesmo no caso de línguas que sobrevivem em pleno vigor e que podem hoje ser estudadas mais a fundo, vocabulários antigos permitem uma rara oportunidade de se descobrirem fatos acerca do passado lingüístico recente. Um exemplo que mencionei antes é o empréstimo maritó 'paletó' em Karajá, que, apesar de não ser mais usado hoje em dia, foi documentado por duas fontes da década de 1940. Um outro exemplo que acabo de descobrir é ainda mais interessante. Trata-se de um empréstimo da Língua Geral para 'dinheiro' -- mais um acréscimo à pequena lista de palavras da Língua Geral (Paulista, provavelmente) em Karajá, que descrevi em artigo publicado há alguns anos. [Embora contatos com falantes de Língua Geral Amazônica tenham provavelmente ocorrido ao norte do território Karajá (com falantes de Karajá do Norte e Xambioá), é provável que a grande maioria dos empréstimos tenham vindo da Língua Geral Paulista falada pelos bandeirantes, que foram os primeiros a estabelecer contato com os Karajá da Ilha do Bananal, núcleo populacional deste povo.]
No vocabulário de Eduardo Sócrates (publicado em 1892, representando o dialeto Karajá do Sul; disponível aqui), mais ou menos escondido em uma transcrição à portuguesa e desfigurado por erro tipográfico, lá estava o empréstimo: Intadiná 'dinheiro'. Embora a relação com a palavra para 'dinheiro' usada em Tupinambá (itajuba, de acordo com o Pequeno Vocabulário Português-Tupi do Pe. Lemos Barbosa) e na Língua Geral seja em princípio menos óbvia, um estudo das outras palavras no vocabulário explica as aparentes anomalias:
(1) A transcrição de Sócrates era, provavelmente, Intadiuá, onde a letra u -- substituída por n pelo tipógrafo -- representa o glide /w/ do Karajá. Isto fica claro quando se percebe que o mesmo erro tipográfico ocorre em outras palavras do vocabulário: quèná 'jatobá', por [kɨ'wa]; uaxinaté 'arco', por [waʃiwaha'ɗɛ]; cucêêné 'ema', por [kuƟehe'we].
(2) Refletindo sua pronúncia na maioria dos dialetos do português brasileiro, a seqüência di é usada por Sócrates para representar a africada [dʒ] do Karajá, como atestado em vários exemplos: diatá 'banana' [idʒa'ɗa], diú-hú 'dente' [dʒu'u], adiu 'paca' [hã'dʒu].
Assim, a palavra representada como Intadiná no vocabulário era provavelmente pronunciada como [ĩɗadʒu'wa] ~ [ĩɗadʒu'a], correspondendo perfeitamente ao provável original em Língua Geral (para correspondências semelhantes, vide os empréstimos para 'cavalo' e 'sal' no meu artigo mencionado acima). Caso tenha sido introduzido no tempo dos primeiros contatos entre os Karajá e falantes da Língua Geral Paulista, [ĩɗadʒu'wa] teria sobrevivido por cerca de dois séculos, antes de ser substituído pela atual palavra para 'dinheiro', um empréstimo do português: [nie'ru].
Embora o "Tupí da Costa" e um de seus descendentes, a Língua Geral Amazônica, sejam bem documentados, o conhecimento de seu outro descendente, a Língua Geral Paulista, é bastante limitado (cf. Aryon Rodrigues, "As línguas gerais sul-americanas"). Uma fonte indireta de conhecimento da Língua Geral Paulista acaba sendo, justamente, os empréstimos em línguas de povos com os quais os bandeirantes tiveram contato. Um dos casos mais fascinantes é o do Boróro (cf. Adriana Viana, "Sobre a língua Bororo"), indígenas de Mato Grosso que se aliaram aos bandeirantes no combate a outras tribos indígenas (inclusive os Karajá).
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Eduardo Rivail Ribeiro
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