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Tuesday, May 5, 2009

E o Mourão, de onde veio? E por onde anda?

Quando criança, a perda de um dente de leite era coisa séria -- tão séria que requeria um pequeno ritual, sem o qual a lacuna do dente perdido supostamente não se preencheria. O dente deveria ser atirado no telhado da casa, depois de se recitar o versinho abaixo três vezes:

Mourão, mourão,
Tam' esse dente podre
e me dá um são.
(Tam' é, no meu dialeto caipira, alteração de toma, a forma imperativa de tomar.) Não sei se isto fazia parte das regras "oficiais" do ritual, mas, para mim, o telhado sempre devia ser o de casa. Uma vez, perdi o dente na escola e, pedindo licença à professora para usar o banheiro, guardei-o enroladinho em um pedaço de papel, para depois realizar o ritual em casa. Fiz o mesmo quando perdi um dente na casa de uma tia.

O ritual é, pelo visto, antigo, trazido d'além-mar. É o que fiquei sabendo através do excelente blog O rabo do gato, da madeirense Lília Mata, onde se aprende muito sobre o folclore da Madeira e se descobre que o oceano muito mais nos une que separa. Mas o mistério, para mim, continua: quem era o tal Mourão? De onde teria vindo? E teria, no mundo moderno, perdido o emprego para a tooth fairy?

A propósito, o versinho madeirense, reproduzido d'O rabo do gato, é ligeiramente diferente do meu:

Dente mouro, dente mourão,
Toma lá este podre
e dá-me outro são.

Sunday, April 5, 2009

Couto de Magalhães e a Língua Geral Paulista

Ao longo do Rio Araguaia, cada cidade tem pelo menos uma rua ou praça homenageando o general José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). É, do ponto de vista do colonizador, uma homenagem bem merecida. Afinal, poucos fizeram tanto para promover o Araguaia como via de navegação e como futuro do desenvolvimento nacional. Para Couto de Magalhães, o caráter central do Araguaia para o futuro do país não era apenas retórica política, mas algo digno de empenho pessoal, tanto que o general acabaria sendo o principal responsável pela introdução da malfadada navegação a vapor no rio.

Muito antes de Pedro Ludovico, Couto de Magalhães já defendia a mudança da capital goiana -- não para o sul, mas para Leopoldina (hoje Aruanã), povoado na margem direita do Rio Araguaia, próximo à foz do Rio Vermelho. As razões (econômicas, ecológicas etc.) para a mudança são expostas em seu livro Viagem ao Araguaya, publicado originalmente em 1863 (com "edição definitiva" de 1902), quando o então governador da província de Goyaz não passava dos 26 anos. É um livro de grande valor histórico. Mas, para leitores cujo primeiro contato com este autor se deu através de O Selvagem (1876), obra clássica da etnolingüística brasileira, o livro do jovem Couto de Magalhães poderia ser decepcionante. Muitas das informações de interesse etnográfico, obtidas de índios desaldeados (reunidos em presídios) ou do folclore corrente na velha cidade de Goyaz, são questionáveis, quando não fantasiosas. Exceto pelo vocabulário Avá-Canoeiro (de importância ímpar, já que seria por muitas décadas a única fonte disponível sobre esta língua; nele se baseia, por exemplo, Paul Rivet), as listas vocabulares (Karajá, Xavánte etc.) incluídas no livro são de segunda ou terceira mão, extraídas dos Glossaria de von Martius (1867).

Viagem ao Araguaya contém, no entanto, um trecho cujo valor lingüístico tem passado despercebido. Ao introduzir o vocabulário Avá-Canoeiro, Couto de Magalhães faz o seguinte comentário (p. 92):

Accrescentarei que, muitos dos nomes constantes do vocabulario, são hoje correntes entre os paulistas do povo, chamados caepiras naquella Provincia; citarei entre outros: tiguera ['palhada'], avaxi ['milho'], itanhaen ['tacho'], ajuruhy ['papagaio'], itá ['pedra'] etc.
O valor desta passagem reside no fato de que serve de testemunha a um período, sobre o qual muito pouco se sabe, de transição entre a Língua Geral Paulista e o português. Pelo visto, em meados do século XIX, a fala dos caipiras paulistas ainda continha muitas palavras da Língua Geral Paulista que viriam a ser substituídas depois por palavras do português. Por mais marginal que seja este tipo de informação, seu valor não pode ser subestimado, dada a escassez de documentação da Língua Geral Paulista e, principalmente, do processo que levaria a sua substituição (gradual, supostamente) pelo português.

Tuesday, March 3, 2009

Cunha Mattos e o falar goiano

Em quanto tempo se faz um dialeto? Ou, mais precisamente, quanto tempo leva para que diferenças dialetais entre duas comunidades lingüísticas que compartilham a mesma origem se tornem perceptíveis? A resposta, naturalmente, é que "depende". Cada caso é um caso, dependendo, entre outros fatores, do grau de isolamento entre as duas comunidades.

Este é um assunto que tem me dado o que pensar, particularmente no caso do português (ou dos portugueses?) falado nos sertões do Brasil. Qual seria, por exemplo, o primeiro registro do uso do /r/ retroflexo tão característico do dialeto caipira? Como se trata de característica radicalmente destoante do português do litoral brasileiro ou da velha metrópole, seria de se imaginar que teria sido notado logo de início. Fico imaginando um cronista luso (ou litorâneo), pouco simpático aos paulistas, criticando sua maneira "bárbara" de falar o português... Dada a raridade de informações lingüísticas deste tipo nas principais fontes do Brasil colonial e imperial, comentários pessoais, ainda que puramente impressionísticos, podem vir a ser extremamente úteis para os estudos dialetológicos.

No caso do português falado nos primeiros núcleos coloniais de Goiás, há pelo menos um registro interessante, produzido um século depois da fundação de Vila Boa (1726) -- não de diferenças específicas, mas de características "melódicas" que já então distinguiam o falar goiano do falar dos paulistas. Devemo-lo ao general Raymundo José da Cunha Mattos (1776-1839), em sua Chorographia Historica da Provincia de Goyaz, concluída em 1824 e publicada na RIHGB em 1874:

"A pronunciação da gente de Goyaz é mui doce: não obstante serem descendentes de paulistas, não têm aquella aspereza guttural que se nota nos naturaes de S. Paulo, nem a affectação feminil de muita gente de provincias mais illuminadas." (p. 311)
Esta é a primeira menção à existência de características próprias ao falar dos "goyanos" de que tenho notícia. Haverá outras mais antigas, não só sobre Goiás, mas também sobre o Paraná, o Mato Grosso e outras áreas de fundação bandeirante? E quanto aos falares de outras regiões do Brasil?

Sobre a Chorographia e seu autor


Carta corografica da provincia de Goyaz e dos Julgados de Araxá e desemboque da provincia de Minas Geraes

A Chorographia Historica da Provincia de Goyaz foi escrita quando seu autor ocupava o cargo de governador das armas da província (1823-1826), sendo fonte obrigatória para o conhecimento da história e dos costumes dos habitantes de Goiás em seu primeiro século de colonização (ao lado das Memorias Goyanas do Pe. Luiz Antonio da Silva e Sousa). Nascido em Faro, Portugal, Cunha Mattos foi militar de destaque, tanto servindo a Portugal (na África e no Brasil), antes da Independência, quanto ao Império do Brasil. Desempenhou também papel relevante na vida intelectual do Império, tendo sido um dos fundadores do IHGB.

Como "forasteiro" em Goiás, Cunha Mattos tem um ponto de vista privilegiado ao escrever a Chorographia, notando fatos que escapariam a autores locais. Um exemplo é o breve comentário lingüístico transcrito acima. A atitude crítica que assume, não poupando críticas a muitas características dos habitantes da província tidas como censuráveis ("a sêde do ouro foi causa da descoberta de Goyaz, e a esperança do ouro tem sido a causa de sua ruina"), acaba conferindo legitimidade à descrição que faz de aspectos positivos (como, por exemplo, a beleza e modéstia das mulheres, a hospitalidade e a falta da pedante pretensão a nobreza, "ordinária em outros lugares", além da 'doçura' do falar goiano).

Cunha Mattos também escreveu vários roteiros dos lugares por onde viajou no Brasil, reunindo informações para a elaboração de vários mapas. Um deles (vide acima; clique para ampliar), que serve de complemento à Chorographia, está disponível online, no site da Biblioteca Nacional Digital (de Portugal). Para aqueles de nós interessados na história das populações indígenas, o mapa é particularmente valioso pela detalhada localização que dá dos aldeamentos indígenas.